A maioria das pessoas querem se dar bem na vida – ter uma vida confortável, um bom emprego, de preferência um que não trabalhe muito. E para isso escolhem diversos caminhos. Alguns se contentam só com um emprego numa boa fábrica, outros preferem ficar morando com a mamãe até os trinta e poucos anos, ainda tem os que se aventuram no paciente jogo dos concursos públicos, e haja paciência para esperar ser chamado. E além de todos esses temos o vestibulando. Aquela pessoa que se enfia por um ou mais anos dentro de um cursinho (para algumas pessoas esse mais é BEM MAIS).
Entre os vários sofrimentos do mundo está a angústia de um vestibulando. Sabe que você fica angustiado quando a camisinha estoura e você fica rezando pra menstruação chegar logo ou o exame dar negativo? Então, pensa nessa sensação durante o ano todo. O medo de saber se vai dar ou não vai dar certo… É, o vestibulando sofre!
Mas gostaria de separar bem as coisas. Não estou falando aqui de qualquer vestibulando. Não é nenhum desses que perde o RG na porta da UNIBAN e recebe em casa o comprovante de matrícula e um certificado de sócio da Kun-klux-klan. Não, Senhor! Estou falando do vestibulando que passa por 4 fases durante toda sua vida “vestibulesca”. Fases que no total duram pelo menos um ano.
Sem mais delongas, vamos aos fatos:
1ª Fase – A idéia
É nessa fase que o vestibulando tem a genial idéia de ingressar em uma universidade.
Os motivos para isso variam. Ele pode ter acabado de iniciar o ensino médio, e depois de já ter escutado desde o jardim de infância seus pais fazerem pequenos comentários como “Vê se estuda e entra na USP, senão o bicho vai pegar pro seu lado” ou “Olha meu bebê, que guti-guti! Se você estudar direitinho e entrar na faculdade, papai te dá um carro”… Resolve que entra numa boa universidade é uma boa!
Mas pode também ter terminado o ensino médio e depois de ter visto que achar um emprego não é tão fácil, decide enfiar a cara nos livros.
Lembra quanto te perguntavam “o que você vai ser quando crescer?”. Era melhor você ter dito “GRANDE”. Pois é nessa fase que você descobre que pra ser o que sonhou tem que estudar. E na maioria dos casos, estudar muito!
Então você decide entrar em um cursinho!
2ª Fase – É hora de “ralar”!
Procura, então, um cursinho. Que alias, tem para todos os bolsos. Desde bolsos recheados com notinhas azuis com um peixinho atrás, até aqueles bolsos zuados que só servem para carregar papel inútil e a chave do barraco.
E no começo do cursinho você começa a ralar. Tudo o que o professor falar você anota em seu caderninho novinho que você comprou especialmente para isso. Faz todos os exercícios. Lê de tudo. Até bula de remédio. Mas é claro, isso no primeiro mês, pois um ou dois meses depois já está até dormindo na aula.
Nesse fase você começa a mudar e não percebe. Seus amigos te chamam pra sair e o que você diz? “Tenho que estudar!”. Quando você resolve sair com eles o único assunto que vem à sua cabeça é a crise mundial, a questão palestina, o prêmio Nobel do Obama, e a importância das angiospermas para o equilíbrio ambiental… Todos te olham diferente e os únicos que passam a te suportar é o próprio pessoal do cursinho.
É nessa fase, também, que você descobre que raiz quadrada é um número e não a raiz de uma árvore careta. Que evolução não é o seu bichinho virtual aprender a comer sozinho e que esse seu cabelo ruim é culpa de um de seus pais. Amina não é aquela garota, e anel aromático não é um “forebis” cheiroso. Passa a chamar sal de cozinha de cloreto de sódio na hora do jantar só para impressionar a vovó que esta à mesa, só que percebe que corrigir os erros de português da sua mãe na frente de visitas não pega muito bem.
É! Essa é uma fase difícil e pouco compreendida.
3ª Fase – A Véspera
E depois de ter estudado pra caramba ao longo de todo ano você chega na hora da verdade. A véspera!
Esse é um momento desesperador. Voce acha que não estudou o suficiente. Acredita que não sabe nada, e o pior, não sabe o que fazer. Continuar estudando feito um louco desesperado, decorar todas aquelas fórmulas de física? Ou relaxar? Ai você decide relaxar. Aluga um filme e começa a assistir. Fala se na o vai batendo aquele arrependimento. Vão ser quase duas horinhas de filme que você começa a imaginar tudo o que você estaria estudando. “Nesse tempo dá pra mim estudar pelo menos uns dois capítulos de química orgânica, entender todo o quadro histórico da América latina no século XX, e ainda ler duas obras da Fuvest”… Então você resolve desligar o filme e ir estudar.
Na véspera também todos os arrependimentos surgem. Você fica lembrando de todas as vezes que dormiu até mais tarde e que deveria ter acordado para estudar. Lembra daquela festa que foi e fica pensando em todas as coisas que você teria aprendido se tivesse ficado em casa. É duro!
Nesse dia você também deve deixar tudo planejado para o dia da prova. Que horas sair de casa, o que levar, que ônibus pegar (para aqueles que vão de ônibus, é claro). Tem que pensar em todas as possibilidades. Vai que você dorme demais, tipo, acordar umas 3 horas da tarde, ou os ônibus resolvem entrar de greve bem nesse dia, ou ainda que você pegue um motorista que dirija parecendo sua tia-avó. Pense em tudo e não esqueça nada. Caneta, lápis, borracha, água, chocolate, salgadinho fofura (o cheiro desconcentra qualquer um). E mulheres, nunca confiem no seu ciclo menstrual. Fica a dica!
4ª Fase – Entre a prova e o resultado
Essa é uma fase de grande angústia. Cara, além de ter encarado um ano todo de estudos, o desespero da véspera, o sofrimento em achar que todos são seus concorrentes no dia da prova (principalmente os japoneses), você ainda vai ter que esperar cerca de um mês ou mais para ter os resultados. Nunca as suas férias de janeiro demoraram tanto pra passar! É muito chato. Você entra nos sites das faculdades mais do que no seu próprio Orkut, na esperança deles adiantarem os resultados, mesmo sabendo que o resultado só sai daqui algumas semanas. É de enlouquecer!
Mas posso te dizer, esse é um sacrifício que vale a pena. Se você sobreviver a tudo isso é capaz de suportar até uma sogra chata, pernilongo no ouvido em dia de calor, o trânsito de São Paulo, unha encravado e o horário eleitoral gratuito, que aliás, você estará livre, pois, ou estará estudando na faculdade de seus sonhos ou começando tudo novamente, só que agora com mais experiência… Viu como tudo tem um lado positivo?!